Pedro Amorim: um dos últimos mestres navais construtor de Canoas de Tolda


PedroAmorim e o seu último desejo: contruir uma canoa. (Foto, Adeval Marques)

Em Propriá/SE – As canoas de tolda foram de grande impotância para o desenvolvimento do Baixo e Médio rio São Francisco. De igual importância estão também  os seus construtores navais, pilotos canoeiros e os proprietários que fazem parte dessa história sem registro e que até hoje passam desvalorizados por àqueles que podem e deveriam fazer algo em nome desse legado. Volto a dizer: "um povo sem cultura e sem história perde a sua identidade enquando formação social e por conseguinte de sua nação."
Lembrar a história é viver duas vezes ou mais; lembrar é trazer de volta as emoções e voltar ao passado. As boas lembranças provocam satisfação, oxigena a mente, fecunda a vontade de viver mais e sempre. Canoa de tolda: o símbolo do Baixo São Francisco.

Adeval Marques



Quem é Pedro Amorim?
Pedro Amorim nasceu no Povoado de nome Limoeiro que fica a margem do Baixo Rio São Francisco no dia 27 de junho de 1928, exatos oitenta e três anos de vida. È filho do já falecido Mestre em Carpintaria Naval Minervino Amorim também oriundo do mesmo povoado. Desde os dez anos de idade que lida com a arte de carpintaria onde teve o pai como seu Mestre e Professor no dito ofício.  Pedro Amorim hoje é aposentado.

Canoa de Tolda (Foto arquivo)
 Uma das canoas de tolda que muito é lembrada saudosamente pelos ribeirinhos e isso é devido a sua beleza, imponência e contribuição que ela deixou impressas nessa lembrança, chamava-se Maria Alves. Foi construída por seu pai, Mestre Minervino Amorim, onde ele, Pedro Amorim, com idade de dez anos, já ajudava no oficio e participou de forma efetiva na construção do lindo barco. 

A Canoa Maria Alves era realmente um obra de arte: tinha mais de dezoito metros de cumprimento, largura com quase três metros; dois mastros com pano em formato traquete de setenta metros quadrados; a tolda foi projetada para abrigar três pessoas onde era usanda como dormitório e ainda tinha espaço para duas redes, além de espaço para estoque de mercadoria e outros pertences da tripulação.

Sua madeira veio de vários lugares do Brasil; seu acabamento era impecável; sua pintura um verdadeiro designer qual desenho de Pablo Picasso; seu potencial/capacidade naval de transporte era para 700 sacos de 60 kg, ou seja, 4200 kg - quatro toneladas - e agregue-se a isso a tripulação de 4 pessoas e ainda outras situações do fator surpresa que aconteciam na viagem onde a canoa, volta e meia, era acometida de solavancos, vento forte e parava para absorver mais carga na viagem rumo ao Sertão ou descendo para as cidades do Baixo São Francisco. Elas – as canos de tolda – eram verdadeiras engenhosidades do povo ribeirinho da região do Baixo São Francisco que é compreendido da cidade de Canindé de São Francisco até o povoado cabeço.

As canoas detolda, chatas, botes e outras pequenas embarcações  eram os transportes da época movidas a vento através das velas que também eram chamadas, rusticamente pelos ribeirinhos, de pano ou traquetes.

Segundo Pedro Minervino muitas foram as canoas de tolda que foram transportadas para o rio de cima – cidades de Juazeiro e Santa Maria da Vitória – onde foram usadas como transportes de carga e passageiros.

Elas eram embarcadas no trem na cidade Piranhas/Alagoas; lá chegando eram içadas e colocadas em uma plataforma de trabalho – espécie de estaleiro – e então cortadas em dois lugares ficando assim divididas em três pedaços. Após essa “cirurgia”, verdadeiro trabalho de mestre naval pois, se um erro fosse cometido, toda a embarcação estaria perdida, a canoa era novamente içada e levada ao trem que já estava a sua espera e dai por diante viajava rumo ao “rio de cima”, ou cidade de Juazeiro onde os seus serviços seriam e foram de grande importância.

Pedro Amorim relatando a história (Adeval Marques)
Alcino Alves Costa, escritor, diz em seu livro, ainda não publicado – o qual tenho em minha pequena biblioteta e chama-se Canoa: O caminhos pelas águas - e Pedro Minervino confirmou esse fato, que quando algumas canoas foram cortadas ao meio para serem levadas houve grande comoção por parte do povo que choravam com grande sentimento onde só podemos comparar tal sentimento como se fosse a perda por morte de um ente querido.

Tal era o amor desse povo ribeirinho pelas canoas de tolda e ainda está muito vivo na lembrança, principalmente dos mais idosos, a figura e história daquele tempo de outrora que não volta jamais, que essas lembranças são motivos ainda de conversas entre os antigos e nova geração. Fotografias, histórias e lembranças é o que restou de uma vida de contribuição importantes deixadas pelos Mestres navais, pilotos canoeiros, proprietários e povo ribeirinho.

A extinção das canoas de tolda e da arte de carpintaria naval deve-se, exatamente, aos fatores de desenvolvimento da região que chegou as pressas com o nome de progresso. Esse progresso desenfreado trouxe o caminhão, as pontes, barragens, os motores que um dia substituiram os panos, as velas o traquete e foram colocadas nas popas das canos de tolda, chatas, botes e outras canos transformando-as assim em um novo tipo de embarcação movida a motor e abastecida não mais pelo vento e sim pelo óleo e as quais chamaram-se de lanchas. Foi assim e por serem vulneráveis ficaram em situação de risco e chegaram a sua quase total extinção.

Como registro da época só ficou fotografias e histórias em lembranças, cartas de viagens que registraram algum momento ou os registros na capitania de Penedo/Alagoas e o rio como principal cumplice dessa saga que ainda espera o navegar em suas águas de uma bela nau canoa de tolda.

Pedro Minervino fala de toda a existência das canoas de tolda com muita propriedade, pois além de filho de mestre naval o foi também, sendo sua contribuição na construção de várias canoas tanto no rio de baixo – Baixo São Francisco - quanto no rio de cima – Médio São Francisco.

Pedro Minervino foi no auxilio do seu pai construir embarcações em vários lugares e logo passou a mestre construindo canos rio a baixo ou rio a cima. Seu pai habilidoso lhe ensinou tudo que hoje sabe na arte do fabrico e ele atesta que os maiores mestres que existiam eram oriundos do Sertão onde, especialmente nos povoados de Cajueiro/município de Poço Redondo  – lugar onde eu nasci – e  no também povoado Jacaré – berço dos Fernandes e Marques, família da qual pertenço –  os mestres navais Pedro Ruberta e Cornélio, sendo esse último ainda vivo com idade de 81 anos – foram grandes e verdadeiros engenheiros, sendo que cada um a sua época. Cornélio Rodrigues mora ainda no povoado Jacaré e foi o construtor de uma das últimas canoas de tolda chamada de Itabajara que pertenceu a Francisco Fernandes e foi vendida para a cidade de Neópoles e hoje o seu filho, Everaldo Fernandes a comprou e está tentado restaurá-la. Obs: O link da matéria sobre a Itabajara, caso queira ler, basta clicar  aqui 
Mestre Cornélio Rodrigues (Foto, Revista Canindé)
Segundo o Mestre Naval Cornélio Rodrigues - foto ao lado no local em que a ele construiu a Itabajara e estamos produzido um documentário a respeito – disse que o pano traquete foi inventado no povoado de Entre Montes/município de Piranhas, Alagoas, onde um certo homem (?) – estamos pesquisando o dito – que tinha muita habilidade na arte de cortar panos para às canoas de toldas e outras dos tipos: botes, pesqueiras, chatas e assim inventou o traquete para as  canoas de tolda.

A invenção dos panos traquetes teria se originado após os pilotos das mesmas perceberam que o peso das naus demasiadas e assim comprometia a estabilidade e o tempo das viagens além de que, como agravante, não gerava o impulso ou o ré-arranque necessário para fazer com que a nau tivesse total estabilidade. O pano traquete, muito bem elaborado, deu certo e foi logo adotado chegando por fim a substituiu os panos borboletas e também os chamados panos coringas tão usados por vários anos. iniciava-se ali uma nova era para as canoas de tolda e na região do Baixo São Francisco pois as viagens ficaram mais rápidas e além de que a beleza do pano traquete é incomparável.

Os mestres do Alto Sertão do São Francisco foram dos melhores devido a sua dedicação e aprendizado adquiridos com esforço e por terem esses dominados às técnicas de matemática e de desenho, agregue-se ai o conhecimento do madeiro necessário para a confecção das peças, pois nem todas podiam ser feitas com madeira igualitária. A pluralidade, diversidade e qualidade eram pensadas para a aplicação nas mais diversas situações. Lembra o Mestre Cornélio Rodrigues que a madeira, para fazer o mastro, era o Pau d´arco, o costado era de Amarelo, Craiberas, a caverna era das raízes da Jurema; as tábuas do camarote de Cedro, Aroeira e Angico, e assim por diante. 

É esse o registro que deve ser salvo para considerar a história das canoas de tolda, dos pilotos canoeiros, dos seus proprietários e nossa gente. Um registro arqueológico, até, e um verdadeiro legado da história e cultura do povo do Nordeste/Alto Sertão de Sergipe e Alagoas/povo do Baixo e Médio São Francisco, verdadeiros beradeiros, canoeiros, mestres navais de carpintaria, pilotos e outros que foram esquecidos na história do tempo. Sem valor, sem vida, sem história, porém, com muita contribuição sociais para o desenvolvimento humano das regiões do Médio e Alto São Francisco. 

Ao menos a cidade de Piranhas/Alagoas fez um pequeno museu de sua história e lá pode-se ver alguns pertences e peças de canoas de tolda e em especial uma reconstrução muito bem aproveitada que fizeram nascer a Canoa de Tolda Luzitânia que fica no porto exposta para visitações e causando grande interesse por parte de curiosos, estudiosos ou pessoas que vem a procurar de reencontrar algo perdido que una o passado e o presente. Um verdadeiro elo da história. 

A cidade de Propriá-SE bem que poderia fazer algum resgate sobre essas grandes embarcações que tanto ajudaram a construir a história do seu povo. Elas foram os principais meios de transportes de carga e de pessoal por muito tempo. Casas da cidade tiveram suas pedras trazidas por elas, azuleijos, cerâmicas, tintas, madeiras, tijolos, tecidos, alimentos, correspondências e sobre tudo a formação da população ribeirinha onde muitos vieram de tantas partes e chegavam através das canoas.

Hoje em Propriá o rio tem lanchas a motor, o progresso teve que vir iguais a todas as regiões e aqui não poderia ser diferente, apenas é preciso agir e resgatar um pouco da história e levar ao conhecimento de todos, antes que seja tarde demais. A história é a ciência mais bela entre todas pelo simples fatos de registrar os acontecimentos que as demais proporcionam.

Barco construído por Pedro Amorim (Adeval Marques)
Como mostra a foto em que o Mestre Pedro Minervino está segurando o barco que construiu e foi vendido para a cidade de Piranhas/Alagoas, percebe-se que ainda está muito presente na sua lembrança de 83 anos de idade a vida e história do antes sugado pelo ataual depois e presente.

Pedro Amorim se emocionou nesse pequeno registro sobre a sua contribuição dizendo que “os homens deveriam dar mais importância ao passado porque o presente nada seria sem o antes”. Sabias palavras.

O que o Mestre Pedro Amorim quer dizer é que, uma parte da história e da identidade do nosso povo, está sendo apagada e nada está sendo feito para registrar tais fatos. É o seu lamento que aproveito e pego para mim.

Pedro Amorim e Cornélio Rodrigues são verdadeiros registros vivos da história e em especial sobre as canoas de tolda, seu fabrico, sua contribuição e cultura. Sua mente começa a dar os primeiros sinais de enfraquecimento, contudo, ainda pode-se extrair muito e ser colocado como uma verdadeira aula e aprendizado da nossa história social e cultural. 

Estaleiro de canoa de tolda (Foto, Pedro Amorim)
A canoa Maria Alves, também motivo desse artigo, foi construída a mando de um rico português que foi dono da fábrica de arroz em Propriá onde essa fábrica chamava-se Orion e a nau terminou seus dias no porto da cidade de Pão de Açucar/Alagoas por ocasião de que, o seu segundo proprietário, que também foi piloto da mesma e a adquiriu do seu antigo patrão, ao colocá-la em terra, não pode fazer os serviços de reparo tão dadas eram fortes a imponência da canoa e assim terminou os seus dias ao relento lhe relegou e a expôs para a ação do tempo onde a chuva, o sol e vento lhe foram minando a resistência e suas tábuas, costados, mastros, suas  vegas, cordas, bulinas, muitões, casco, rombo mestre, carvernas, casquilho, leme, convés, tolda, estrados, cana de leme, forquilhas, escoltas, prancha e sua alma acabaram-se da pior maneira que uma canoa pode ter e morrer: fora da terra.

Canoa foi feita para a água e nela deve finar-se. A canoa Maria Alves, tão forte, tão bela, tão imponente, linda, luxuosa, com um valor imenso para s história, acabou-se em pó. Como diz a passagem bíblica: Tu és pó e para o pó vatareis. A canoa Maria Alves hoje só existe na lembrança dos que a conheceram ou dos que se interessam pela história do povo e das  canoas do Baixo São Francisco. Iguais a mim e a voce que está lendo esse artigo agora. 

Permitam-me finalizar com mais uma pequena homenagem a Nildomar Fernandes – meu pai já falecido – outro Mestre Carpinteiro que me disse um dia a seguinte frase “em minhas veias, ao invés de sangue, tem às águas do rio São Francisco”.

No ano de 2012 estará sendo editado o documentário de nossa autoria a respeito doassunto e em seguida, por volta de 2014, o livro "Canoa de Tolda, Canoeiro e o Baixo São Francisco"

Essa é uma das missões que Deus mim deu: escrever algo sobre o meu povo, sua história, cultura e valores.

 Adeval Marques

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