Caramujos africanos invadem Sergipe


Texto: Viviane Paixão / Foto: Tarcísio Dantas

Em Propriá. distante 98 quilômetros da capital, o caramujo gigante africano está tomando conta da cidade. Ele pode ser visto em postes, árvores, muros, cercas, no solo, enfim, em qualquer

lugar. As escolas estão infestadas pelo bicho, colocando em riscoa saúde dos estudantes. No colégio Pré Escolar Dra. Maria do Carmo Alves, o molusco invadiu até as salas de aula e as atividades tiveram que ser suspensas.

“Suspendemos por alguns dias justamente para evitar que as crianças peguem nesses caramujos e fiquem doentes. Antes disso, fizemos uma reunião com os pais e comunicamos que estávamos fazendo isso para tentar combater a proliferação dos moluscos na escola e eles concordaram. Já informamos a Secretaria de Saúde e uma equipe veio aqui, colocou remédio e fez uma limpeza geral”, explica Eliana da Cruz Melo, diretora do colégio Pré Escolar Dra. Maria do Carmo Alves.

A problemática tem sido tema de aula para os professores. A docente Maria José dos Santos, que ensina o 2º período da Educação Infantil, comenta que os alunos sabem sobre os riscos que o caramujo gigante africano traz e não mexem de maneira alguma no bicho. “Eu explico que se pegarem podem ficar doente e até morrer. Ainda digo que é melhor nem chegarem perto. Aí quando eles encontram algum ficam logo gritando: ‘Tia, aqui tem um’. Também já fizemos cartazes com fotos e curiosidades do animal”, conta a professora.

O pequeno Paulo Emídio Rodrigues, de 7 anos, parece que aprendeu direitinho a lição e, com a ajuda do amigo Bruno Oliveira, 11, dá uma aula sobre o caramujo. “É um negócio enrolado e pontudo atrás, que tem uma casca em cima dele bem grande e por dentro parece uma lesma.

Ele não morde, mas nunca peguei em nenhum, porque traz doença que fica com a barriga grande, sente muita dor e pode até matar. No meu colégio tem um monte. A minha professora diz que é muito perigoso e que dá um verme que seca a pessoa”.

A funcionária pública, Leandra Santos de Almeida, 25, conta que a sua residência está sendo tomada pelo caramujo. Ela reclama da falta de ações que eliminem de uma vez a praga no município. “Todo ano, nesse período, é a mesma coisa, mas agora está bem pior. Parece que desta vez ele se alastrou mais. Na minha casa o quintal está horrível e, como está em reforma, a situação piorou. A gente joga sal, o pedreiro dá uma limpada, mas não adianta. Parece que quanto mais tira, mais aparece. Fico muito preocupada, porque tenho uma filha de quatro anos. Não deixo nem ela chegar perto do quintal, mas é difícil controlar criança”.

Ação Municipal

O secretário de Saúde de Propriá, Murilo Souza Oliveira, afirma que tem feito uma ação integrada com as outras secretarias municipais no combate ao caramujo gigante africano. “A Secretaria de Obras é responsável pelo mutirão de limpeza e a de Educação com a divulgação para a comunidade como um todo. Temos realizado um trabalho intersetorial, conduzido pelo Ibama que está fazendo a capacitação e assim todas as pastas vão atuando nas suas respectivas áreas”, detalha.

Murilo pede a população do município para colaborar com o trabalho de erradicação do caramujo.
“A comunidade por si só também tem que fazer a sua parte. Primeira conduta é acionar os órgãos competentes que estão à frente desse trabalho. A segunda é, caso tenha condição de fazer a incineração desse bicho, não pegar com a mão, acondicionar dentro de uma lata metálica e tocar fogo. E ainda aqueles detritos que ficam depois de queimado é preciso enterrar em um local seco”.

Segundo o secretário, para conseguir acabar com a praga é preciso que o Ministério da Saúde entre nessa luta com uma campanha nacional. “Essa epidemia não é pontual apenas no nosso Estado, é no Brasil inteiro. O caramujo tem se proliferado de forma assustadora. Precisamos nos unir para criar forças para combatê-lo. A ação que temos feito é de consequência, mas é necessário combater a causa”, ressalta Murilo.

Ibama

Segundo a coordenadora do Núcleo de Fauna do Ibama, Gláucia Lima, a praga já invadiu quase todo o Estado. “O caramujo tem se expandido nos municípios infestados, em cujo controle tenha havido descuido, principalmente no período de chuvas, quando ocorre o pico de reprodução, com a possibilidade de 400 ovos por postura e quatro posturas ao ano, denotando o alto poder de proliferação da espécie”, detalha.

Em 2006, um levantamento realizado pela Comissão Estadual de Manejo do Caramujo Africano, composta por membros do Ibama, Secretaria de Estado da Saúde, Ministério Público Federal, Secretaria de Estado da Educação, Emdagro, Ministério da Agricultura, Secretaria do Meio Ambiente e Universidade Tiradentes, revelou a presença do caramujo africano gigante em 11 municípios sergipanos: Aracaju, Estância, Itaporanga, Boquim, Siriri, Capela, Muribeca, São Cristóvão, Areia Branca, Lagarto e Neópolis. Hoje, esse número mais do que duplicou. Em 2009,
constam 26 localidades infestadas, sem controle, pelo Achatina fulica.

“Temos notícias de infestação no município de Siriri desde 2003, sendo que as cidades que vêm recebendo o atendimento da Comissão Estadual de Combate ao Caramujo Gigante Africano são orientadas a combater essa praga continuamente, considerando os males que causam à saúde pública, a agricultura e ao meio ambiente. Boquim também tem elevados índices, com a presença do caramujo no cemitério local e em áreas agrícolas”, pontua Gláucia Lima.

“Areia Branca está com infestação em residências e terrenos baldios e na Unidade de Conservação do Parque Nacional Serra de Itabaiana. Outro ponto de infestação preocupante é a região do Porto, com área de competência de atuação da Anvisa, que está integrando a Comissão Estadual e que já demanda atuação da Comissão na Barra dos Coqueiros e no Porto. Além disso, Propriá é mais outra localidade dominada pela praga, principalmente em escolas públicas e em vários bairros”, acrescenta a coordenadora do Núcleo de Fauna do Ibama.

Orientações

Gláucia garante que o Ibama, integrado à Comissão Estadual de Combate ao Caramujo Gigante Africano, com a parceria forte principalmente da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), da Secretaria Estadual de Educação e da Administração Estadual do Meio Ambiente (Adema), vem orientando as regiões a tirar as suas Comissões Municipais de Combate ao Caramujo e a realizar o combate em três frentes.

“Uma de comunicação, levando a informação às pessoas e divulgando o trabalho desenvolvido pelas instituições; outra de capacitação, formando os agentes multiplicadores, capacitados a multiplicar as ações de combate ao caramujo no município; e a outra de coleta, onde a cidade deve disponibilizar a estrutura de coleta e destinação adequada dos resíduos dos animais coletados em área urbana”, comenta.

A coordenadora de Defesa Vegetal da Emdagro, Maria Aparecida Andrade Nascimento, revela que no primeiro semestre deste ano foi realizado um levantamento fitossanitário em 258 propriedades agrícolas, mas só foi encontrado o caramujo em apenas oito delas. “Nas áreas de agriculturas onde são encontrados os caramujos, um engenheiro agrônomo da nossa equipe realiza todo trabalho educativo junto ao produtor, ensinando-o como fazer o controle da praga.

Inclusive, na segunda,14, os órgãos que integram a Comissão Estadual de Combate ao Caramujo Gigante Africano vão estar reunidos na Procuradoria Federal, com a procuradora Gicelma Nascimento, para que cada um possa mostrar o trabalho que está sendo desenvolvido”.

Cuidados

A coordenadora do Núcleo de Fauna do Ibama avisa que, caso a sua propriedade esteja infestada pelo caramujo gigante africano, deve-se comunicar as autoridades competentes.

“Informe imediatamente a Secretaria Municipal de Saúde, a Secretaria de Meio Ambiente e a Emdagro em caso de infestação em áreas de propriedades rurais, ou ainda, a Promotoria do Município. Pode-se também comunicar ao Ibama, Ministério Público Federal e Estadual, Semarh, Adema e demais instituições integrantes da Comissão Estadual de Combate ao Caramujo”, diz.

Glaúcia ainda informa todos os cuidados necessários para evitar o contágio de doenças transmitidas pelo caramujo africano, como a angiostrongilíase meningoencefálica, que poucas vezes é fatal, porém, pode ocasionar sintomas, como dores abdominais que chegam a perdurar por vários meses, além de lesões oculares irreversíveis.

“Deve coletar o caramujo, protegendo as mãos com luvas ou sacos plásticos e não descuidar das medidas de higiene para o consumo de frutas e verduras, deixando-as de molho por 30 minutos em água com vinagre. Também é bom evitar que as crianças brinquem com o molusco, e sempre manter os quintais limpos e livres de entulho”, ensina Gláucia.

Um outro problema ocasionado por caramujos é a esquistossomose, doença causada por um verme (trematódeo). O caramujo Biomphalaria, que vive na água-doce, é hospedeiro intermediário e o verme passa para o homem quando este banha-se em córregos, riachos, valas alargadas, brejos, açudes, represas, lagos e lagoas, onde haja pouca correnteza, infestados pelos caramujos contaminados.

Praga é uma ameaça nacional

O caramujo gigante africano foi introduzido no Brasil, ilegalmente, na década de 80, durante uma exposição agropecuária em Curitiba, prometendo retorno financeiro fácil e possibilidade de exportação. O que era para ser uma boa alternativa econômica para os restaurantes brasileiros, se transformou em uma ameaça à saúde humana e ao meio ambiente. A idéia inicial era comercializá-lo a um preço inferior ao escargô - prato exótico. O sonho de ficar rico despertou o interesse de moradores de várias cidades e pequenos empresários rurais que decidiram investir na espécie.

As dificuldades apareceram na hora de vender o produto. Várias pessoas desistiram do empreendimento e os bichos foram abandonados à própria sorte. Em contato com a natureza, eles se tornaram um veneno para o organismo humano, ao contrário do que acontece com os criados em cativeiro. Assim, o caramujo gigante africano se espalhou rapidamente pelo país. A sua reprodução é muito rápida. Ele é capaz de colocar cerca de 600 ovos por ano, e, o pior, é assexuado. Ou seja: já que não tem sexo, todos os animais põem ovos e chegam a copular 11 vezes por noite.

O Achatina fulica – nome científico dado ao caramujo gigante africano - é classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza como uma das 100 piores espécies exóticas invasoras no mundo. Em 2005, o Ibama declarou guerra a essa praga no Brasil e, através da Instrução Normativa (IN) número 73, proibiu a criação e comercialização de moluscos terrestres da espécie, bem como de seus ovos.

Apesar das incansáveis batalhas na tentativa de exterminar o caramujo africano no país, o molusco se prolifera cada vez mais pelos estados brasileiros. Come o que aparece pela frente, como flores, folhas, frutos, hortaliças e até papelão, e possui resistência à seca e ao frio. Pode ser encontrado em locais de vegetação nativa, como florestas, caatingas e brejos, mas também em áreas cultivadas pelo ser humano, como hortas, pomares, quintais, jardins, inclusive em terrenos baldios dentro das cidades.

Fonte:Jornal da Cidade

Comentários

Mauricio Aquino disse…
sugiro a leitura do artigo no link: http://gazetaweb.globo.com/v2/gazetadealagoas/texto_completo.php?cod=171673&ass=57&data=2010-10-02

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