Autoridades querem mudar estigma de Itabaiana

Autoridades estaduais, municipais e representantes de várias instituições querem acabar de uma vez por todas com o estigma de que a cidade de Itabaiana, a 56 quilômetros de Aracaju, é
violenta e que o crime por lá é uma questão cultural. Mesmo que os números insistam em provar a tese da violência, pois até sexta pela manhã, já foram contabilizados 11 homicídios somente este ano, foi iniciado um trabalho para conter esses índices. Possivelmente esta semana – o dia ainda será definido –, o secretário de Segurança Pública, Kércio Silva Pinto, e o prefeito da cidade, Luciano Bispo (PMDB), criarão oficialmente o Gabinete de Gestão Integrada, com o objetivo de discutir as políticas de segurança para o município, hoje com cerca de 80 mil habitantes.

Quem primeiro quer derrubar a tese de que o crime em Itabaiana é cultura é o secretário Kércio Pinto. “Não concordo com isso. Não tem sentido essa tese, queremos acabar com isso e dar uma nova filosofia”, disse Kércio. A questão “cultural” que envolve o crime foi defendida pelo delegado da Polícia Civil Hildemar Lima Rios e pelo comandante do 3º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Enilson Aragão, na semana passada, ao tecer comentários sobre a situação da segurança pública na cidade. Mas na sexta-feira, o tenente-coronel Enilson já mudou o discurso e disse que a violência é gerada por problemas econômicos.

A mudança de filosofia para Itabaiana pregada por Kércio Pinto parece que vai entrar em prática com o Gabinete de Gestão Integrada. Ele (o gabinete) nasceu depois de muitas discussões, sendo que a principal delas ocorreu na tarde da quarta-feira passada, após uma ampla reunião com representantes de diversos segmentos da sociedade itabaianense. Curiosamente, enquanto as autoridades chegavam a um consenso na reunião, o ex-presidiário José Júnior Rosa dos Santos, conhecido como “Galego de Itabaiana”, 21 anos, era morto a tiros entre as avenidas Walter Franco e João Teixeira, no Centro da cidade, nas imediações do bar
Caminhoneiro.

Mesmo quem não vive a realidade de Itabaiana se espanta ao saber que a violência por lá é algo crônico. O padre e parapsicólogo baiano Juarez Farias, que está em Sergipe divulgando o seu livro “Parapsicologia, os mistérios do inconsciente”, foi a Itabaiana e se surpreendeu com a comoção popular, pois conseguiu reunir mais de 400 pessoas numa palestra sobre “Depressão”, na segunda e terça-feira desta semana. “Fiquei impressionado com a questão da violência na cidade, que está relacionada à queima de arquivo e roubo de carga. As autoridades não podem fechar os olhos e dizer que é uma questão cultural. Isso é uma forma de fugir do problema, que é bem mais complexo”.

Quem também não concorda com a cultura do crime é o presidente da Comissão Agreste da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), José Wanderlei Almeida, alegando que faltam políticas públicas em Itabaiana para conter a violência. “A cidade cresceu desordenadamente por culpa dos governos. Precisamos que as autoridades tomem providências para acabar com este tipo de fama”, afirmou José Wanderlei. A comissão que dirige abrange 14 municípios da região, que, segundo ele, também precisam ter uma atenção maior do poder público.

Embora não tenha participado da reunião ocorrida na última quarta-feira, o advogado José Wanderlei assegurou que a OAB vai participar das reuniões que devem ocorrer mensalmente para traçar as políticas de segurança para o município. Junto com a OAB estarão o Conselho Tutelar, Maçonaria, Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Associação Comercial, Rotary, autoridades policiais e do Estado. “Vamos traçar metas e cumpri-las”, afirmou Kércio Silva Pinto.

Maçonaria itabaianense faz manifesto

Os índices de violência em Itabaiana – não só homicídios, mas também furtos e roubos – preocupam ao ponto da Associação Beneficente Rei Salomão, entidade da Loja Maçônica José Mesquita da Silveira, ter elaborado um manifesto de 12 páginas pedindo providências e sugerindo ações para conter a violência. Esse manifesto foi apresentado na quarta-feira passada, mas antes o secretário Kércio Pinto recebeu em seu gabinete, em Aracaju, maçons de Itabaiana, acompanhados do grão mestre estadual do Grande Oriente do Sergipe (Goese), José Francisco da Rocha, para discutir o assunto.

Segundo o presidente da Associação Beneficente Rei Salomão, Givaldo Marcelino dos Santos, o manifesto questiona o papel do Estado, que é, no entendimento da Maçonaria, “o provedor do bem-estar social de todos os indivíduos que compõem esse quadro social”. A Associação Beneficente Rei Salomão, que representa as lojas maçônicas José Mesquita da Silveira, Luzes da Serra e Unidos da Serra, “resolveu cobrar junto às autoridades de todas as esferas providências e iniciativas no tocante à segurança pública no nosso município”.

Depois de entrevistar representantes de vários segmentos, a Maçonaria em Itabaiana constatou o caos. No trânsito, por exemplo, “está na mais completa desorganização, registrando 42 acidentes em janeiro e outros 49 em fevereiro passado”, segundo dados colhidos junto ao Hospital Regional de Itabaiana. E critica: “Talvez essa omissão se deva ao fato de que esse tema não seja uma máquina de votos, haja vista ele ir de encontro aos interesses de muitos”.

O relatório diz que “Itabaiana também carece hoje de um complexo de segurança. Como centro da região do agreste e pólo para as demais delegacias da região, o município não pode ter apenas uma delegacia que não oferece o mínimo de segurança nem para a sociedade nem para a própria polícia. No município deve ser construído um grande complexo de segurança que possa comportar a parte técnica da Polícia Civil para que sejam realizados bons trabalhos durante os inquéritos e possa oferecer um espaço digno para a sociedade que busque a tutela do Estado. Esse espaço também tem que oferecer celas que garantam àqueles que forem detidos permanecerem presos”.

E fez um alerta ao secretário de Segurança Pública: “Seria importante que nesse complexo existissem ambientes para que os delegados ali residissem durante seus plantões. A secretaria deve ficar atenta às faltas cometidas pelos delegados que trabalham no interior. Uso abusivo das viaturas, falta de comprimento com os horários dos plantões e até mesmo inexistência de plantões são reclames constantes da sociedade itabaianense. É importante que aos fins de semana haja um delegado plantonista na delegacia”.

Os maçons pedem Secretaria de Segurança Pública “que construa postos do Posto de Atendimento ao Cidadão (PAC). Algo parecido já começou em nosso município com a implantação do posto da polícia no povoado Cajaíba. Propomos a implantação de outros nas localidades do Bom Jardim, Rio das Pedras, Terra Dura, Pé do Veado, Agrovila e bairros Queimadas e Miguel Teles, o “Lata Velha”. Comunicação é outra reivindicação da sociedade itabaianense. Como em Aracaju, gostaríamos que fosse ampliado o sistema 190 de atendimento da polícia para melhor prestação do serviço. Aparelhamento da polícia com coletes e armas e implantação de uma unidade do IML em nosso município são outras propostas que aceitas pela secretaria podem trazer grandes benefícios para o nosso município”.

Texto: Antônio Carlos Garcia/Foto: Arquivo JC

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